Buscar
  • Ana Costa Campos

Dia 34 de “subvivência” - Eu não estou Zen.


Sinto um formigueiro no estômago e uma pressa incontrolável.


Estou cansada dos discursos Zen e da sua dimensão restritiva e coerciva, como diria Foucault. Vejo emergir uma doutrina, uma apropriação de poderes e saberes. Dissemina-se um discurso como sistema de sujeição e de segregação que trespassa as redes sociais.

Vai tudo ficar bem!

Estamos todos calmos, temos todos fé e esperança. Acreditamos que tudo vai ficar bem.


Eu sou bem e Eu não estou bem!

Estou cansada de uma casa vazia de barulho, risos e birras.

Estou farta das minhas raízes brancas,

do cheiro a refogado,

da rotina fagueira,

da ausência dos dias e de uma agenda vazia.

Estou apreensiva!

Com os pais esgotados,

com as crianças que já não brincam,

com os que contam os tostões, porque o mês acabou no dia 8,

com as lojas fechadas e os negócios moribundos,

com os projectos indefinidamente adiados,

com a incerteza do emprego e

com o limiar da dignidade humana.


Não posso estar zen. Sou zen por natureza. Sou optimista, resiliente e acredito. A vida tem-me demonstrado isso, no entanto não ESTOU Zen e não estou bem.


O formigueiro incomoda e faz-me olhar para os desafios de todos e de cada um. A pressa atira-me para a procura de respostas, para a caminhada da cura, para o balanço deste sacrifício global.


Estou a contrariar a onda, mas não me importo. Estou consciente de que tem de haver congruência entre o meu discurso, o formigueiro e a pressa. Tenho de respeitar e dar voz a estas correlações funcionais que me levam a dizer:

- eu não estou bem!

Só tendo consciência de que não estou bem, é que posso caminhar para a procura do bem-estar. De mim eu sei e acredito que há muitos mais como eu. Eu sou bem, não estou bem!


0 visualização
  • LinkedIn - círculo cinza
  • Google Places - cinza Círculo
  • Instagram - Cinza Círculo
  • Facebook - círculo cinza